“fazer com, em diferença”

(metodologias das oficinas de audiovisual realizadas ao longo de 2013)

 

Os Seminário de Audiovisual e Identidade Negra

Assim como todos os outros processos formativos levados a cabo pelo Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu, os Seminários de Audiovisual e Identidade Negra se constituíram num processo de auto-formação contínua, com base na educação popular e comunitária, e na lógica do “fazer com, em diferença– metodologia nomeada por Mônica Sacramento, em relação às práticas do Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu, enraizada no compartilhamento horizontal de saberes e conhecimentos, vivenciada na construção coletiva de oficinas e laboratórios. Os seminários foram uma construção conjunta e colaborativa que se deu entre os participantes da Rede de Jovens Lideranças Jongueiras e os/as cineastas, educadores/as, universitários/as, bolsistas e midialivristas que integram o Núcleo de Audiovisual do Pontão. Teve como foco principal a racialização das tecnologias audiovisuais, refletindo e tecendo críticas no/ao modo com que o cinema hegemônico – centralizado geralmente nas mãos de homens brancos – gera processos de exclusão e de objetificação das mulheres de modo geral, dos negros, dos indígenas, das comunidades tradicionais e da cultura popular. Nesse sentido, pensou-se coletivamente num modo de se construir um cinema outro que tivesse uma linguagem politicamente sedimentada nos processos de empoderamento da identidade negra, jongueira e quilombola.

Foi então pensado o filme Saravá, Jongueiro Velho – Semeando o Futuro: uma série de web-documentários voltados para o relato audiovisual de mestres e lideranças jongueiras do grupo Mistura da Raça (São José dos Campos, SP), do Jongo Dito Ribeiro (Campinas, SP), do jongo do Quilombo de Santa Rita do Bracuí (Angra dos Reis, RJ) e também relatos da Comissão da Rede de Jovens Lideranças Jongueiras.

Os Seminários: “fazer com, em diferença”

Os seminários aconteceram em quatro encontros, cada qual realizado em uma determinada comunidade, sendo o último deles na base do Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu. Além disso, esses encontros foram organizados em quatro módulos: 

  1. Expositivo e teórico –  adentrou-se nas histórias do cinema, bem como no modo com que se desenvolveram suas múltiplas linguagens;
  2. Realização de oficinas relacionadas ao uso dos equipamentos, seguidas das entrevistas com lideranças e mestres jongueiros;
  3. Exibição coletiva do registro anterior e gravação de novas entrevistas, desta vez com um olhar mais atento e crítico;
  4. Decupagem coletiva de todas entrevistas, extraindo dali aspectos importantes, para serem direcionadas às oficinas de edição e finalização do filme, estas últimas em desenvolvimento.

Racializando o cinema: desconstruindo hegemonias brancas

As atividades do I Seminário Audiovisual e Identidade Negra ocorreram em três partes. Primeiramente, viu-se como necessária a reflexão crítica em torno dos códigos e retóricas que os meios de comunicação audiovisuais difundem e reproduzem, bem como o necessário encontro com filmografias executadas por grupos, comunidades e/ou coletivos de matriz africana e indígena, tanto no Brasil, quanto em outros países da América Latina. Esse percurso seria necessário antes de adentrarmos na prática do ferramental no âmbito do audiovisual, uma vez que, sem uma reflexão crítica sobre o uso de qualquer ferramenta, tende-se a reproduzir o que já está construído enquanto linguagem. Iniciou-se uma discussão, então, sobre as possibilidades tanto de invenção de novas linguagens, quanto da apropriação de linguagens já existentes de modo a subvertê-las através do seu uso político.

Em um segundo momento, exibiu-se uma filmografia que envolveu o filme O Nascimento de Uma Nação, reportagens dos anos 1990 em torno do funk e do Congo exibidas no Fantástico, documentários brasileiros vinculados ao Cinema Novo, como Viramundo e Aruanda, documentários estrangeiros vinculados à etnografia, e filmes mais atuais como Tropa de Elite. Adentrou-se numa primeira discussão de modo a analisar os códigos dessa linguagem cinematográfica hegemônica, que, conforme uma análise historiográfica clássica, é inaugurada com a consolidação da linguagem fílmica, a qual muito se aproxima temporalmente dos eventos históricos vinculados aos movimentos abolicionistas norte-americanos, ampliando-se, de forma racista, aos meios de representação audiovisual. Nesse sentido, buscou-se entender essa linguagem, bem como suas repercussões que ainda hoje se atualizam nos meios de comunicação controlados, disseminados e enunciados por uma minoria masculina e branca e que, por isso, se constitui conforme suas epistemologias e cosmologias pautadas nas opressões raciais, de classe e de gênero.

Por último, buscou-se apresentar os movimentos de afirmação de identidades excluídas do processo político, buscando as tecnologias audiovisuais como ferramentas fundamentais nesse campo de disputa estético-política. Desse modo, foram exibidos filmes autorrepresentativos que evidenciam a afirmação de identidades negra, indígena e periférica, realizados por minorias etnicorraciais de direito, como, por exemplo, os filmes Alma no Olho (1974), de Zózimo Bulbul, o fragmento do documentário Victoria – Black and Woman com a performance do poema Me Gritaron Negra, de Victoria Santa Cruz, vídeos de passinho do funk difundidos no youtube e gravados em câmeras portáteis em situações cotidianas, e documentários do projeto Vídeo nas Aldeias, realizados por diretores de diversas etnias indígenas.

Os filmes foram entrelaçados a discussões, através das quais se relataram situações similares de vivências de racismo, e, por outro lado, de vivências de empoderamento político. Também a exibição dos filmes inspirou profundamente a pensar as tecnologias audiovisuais como forma de se comunicar inter-comunitariamente, bem como de acessar histórias e narrativas que os/as mestres/as jongueiros/as de cada comunidade dispõem em suas trajetórias, pensando nesse acesso como uma forma de transmissão de histórias inter-geracionais.

Enegrecendo ferramentas: autorrepresentação jongueira

No II Seminário de Audiovisual foram realizadas as oficinas técnicas de fotografia, através de material projetado (retirado de uma apostila produzida para o encontro em questão) e do funcionamento simultâneo da câmera fotográfica, demonstrando múltiplas possibilidades de usos da câmera para gerar imagens diversas. Nesse momento, foram realizados laboratórios de experimentação das funções fotográficas sob tema livre.

Em seguida, organizaram-se quatro equipes que fariam as entrevistas, cujos membros exerceriam suas respectivas funções técnicas dentro da equipe de filmagem. Foram, então, montados Grupos de Trabalho, cada qual direcionado a oficinas/laboratórios relativos à sua função na equipe, como por exemplo oficinas de microfones, gravadores, câmera etc. Findo esse processo, iniciaram-se as entrevistas com quatro mestres/as da comunidade.

De modo geral, pode-se dizer que houve uma apreensão generalizada da potência da ferramenta audiovisual como intermediária na transmissão dos saberes orais, fato que ficou muito nítido em algumas entrevistas, como, por exemplo, na entrevista coletiva com a liderança jongueira Marilda Oliveira, que relatou a importância de a ferramenta audiovisual servir como um meio contemporâneo de se contar e transmitir os conhecimentos e saberes de mestres/as jongueiros/as. Para Marilda, é uma forma não apenas de articular o encontro entre mestres/as e jovens, encontro este intermediado por uma ferramenta que carrega em sua genealogia a oralidade, como também é uma forma de mobilizar as comunidades, no sentido de assistir coletivamente a esse material, e que o evento estava servindo para isso. Também foi relatado por alguns jovens do próprio Quilombo Santa Rita do Bracuí que muitas histórias contadas nas entrevistas eram inéditas para eles.

O III Seminário de Audiovisual e Identidade Negra, ocorrido em São José dos Campos, conseguiu, por fim, sedimentar e refletir criticamente sobre os aspectos que foram traçados nos dois primeiros seminários. Nesse sentido, realizou-se um visionamento coletivo do material gravado em Santa Rita do Bracuí. Foi um momento de os/as oficineiros/as e os/as jovens/as jongueiros/as analisarem as entrevistas na íntegra, levando em consideração os aspectos narrativos e técnicos da entrevista, os quais apontariam uma possível rota para um roteiro fílmico a ser efetivado no trabalho de edição. Num segundo momento, foram realizadas mais quatro entrevistas com mestres, mestras, lideranças e com a própria Comissão da Rede de Jovens Lideranças Jongueiras, que relatou sobre sua própria existência, de modo a conectar os relatos dos/as mestres/as às questões levantadas pela Rede de Jovens.

As atividades do IV e último seminário foram tanto conclusivas, como encaminhadoras. Ao visionarem todo o material bruto gravado, a Rede encontrou os inter-cruzamentos das entrevistas, bem como pensou em pontos de corte para as falas. Pode, então, pensar nas entrevista como recortes que dialogam entre si, compondo um filme. Foi, portanto, compreendido o que é o trabalho edição, bem como a importância de esta ser feita pelos/as próprios/as jovens jongueiros/as, uma vez que é nesse processo que se constrói boa parte da narrativa, manipulando-se o registro a fim de se gerar um discurso determinado. Em outras palavras, compreendeu-se que um filme verdadeiramente da Rede, deveria ser filmado e editado pela mesma. Por fim, foi tirada uma comissão que trabalharia no processo de edição dos filmes, e discutida a necessidade de se editar em softwares livres.


Encaminhamentos – paradas e retomadas

Após o último seminário de 2013, ocorreu uma primeira oficina de edição no software livre Kdenlive, em 2014, com a comissão de edição, e foi encaminhado o formato do documentário: seriam pequenos curtas-metragens dispostos numa plataforma online que lhe conformasse num web-documentário. Tal formato revelou-se muito oportuno, pois se equiparava ao modo de se contar histórias nas tradições orais: as histórias são contadas no dia-a-dia, sem necessariamente uma linearidade, sendo mais pautadas no encontro cotidiano. Esse tipo de suporte final de mídia permite a circularidade das histórias, diferente da linearidade de um “filme comum”, e também a liberdade de como e por onde começar as histórias. É, então, uma forma de autonomia narrativa não apenas dos emissores, como também dos receptores das histórias.

Porém, o software de edição em questão se mostrou pouco proveitoso tecnicamente. Para prosseguir com o trabalho, que ficou estacionado por três anos e retoma agora, optou-se por utilizar o software livre de edição Blender. Para tanto, pensou-se em um ciclo de oficinas de edição, design e webdesign em software livre, realizadas ao longo de um ano. O projeto foi contemplado pelo edital do Rumos Itau Cultural 2016/2017, e será executado de Novembro de 2016 a Outubro de 2017.

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